Conta com o que tu tens e com aquilo que os que te rodeiam te dao.
Ouve-te a ti e aos teus desejos mas sem nunca pôres em causa o que és para os outros.
Erra e erra muito que assim aprenderás a tomar as decisões que precisas. Tu és tu e um "deles", tu és tu e és dos que te rodeiam.
Pratica-te a ti, pratica o teu inesperado, pratica a vossa amizade e o vosso amor.
(Acho que um dia vou dizer isto ao meu filho)
sábado, 30 de julho de 2011
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Especie de cansaço
"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."
Álvaro de Campos
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."
Álvaro de Campos
domingo, 3 de julho de 2011
Africa minha (1)
" Tinha chegado a Africa ha 3 dias e ainda sentia os efeitos do jet-lag da viagem.
Eram 6 da manha, demasiado cedo para qualquer ser humano normal se levantar mas o meu corpo nao me permitiu voltar a adormecer. Levantei-me.
Deixei-me levar pelos sons e cheiros de Africa. O cheiro a erva rasteira, a animais, a calor, a morte ja pairava no ar da planicie de Mumbassa. Local onde me tinha sediado para fugir a civilizaçao, fugir as rotinas, as pessoas, aos costumes ocidentais que me tinham sido incutidos desde criança.
Decidi vir para Africa, mais propriamente para a Moçambique, terra querida da minha mae e meus avos, para tirar tempo para escrever, para me inspirar nas paisagens desertas, torridas, de cores quentes que Africa me proporcionava.
Sai da tenda, da minha casa de pano, fui la fora. Inspirei bem fundo aquele ar puro que o meu santuario possuia.
Contra os avisos dos meus guias decidi aventurar-me um bocado para la dos limites do acampamento, a sensaçao de explorar terreno desconhecido, de poder encontrar animais selvagens, do perigo deixava-me excitado e com vontade de correr esse perigo. Sentia-me confiante na minha pequena insignificancia, na minha pequenez quando comparado com a imensidao daquela planicie, dos seus verdes pastos, dos lagos que se estendiam por largos kms, aventurei-me sem olhar para tras.
Andei durante alguns minutos, horas, nao sei bem, decidi nao levar qualquer tipo contador de tempo para que apenas terminasse a minha caminhada quando o meu espirito assim mo dissesse.
No meio daquelas ervas era por vezes dificil ver onde punha os pes e isso seria a causa da minha ruina.
De um momento para o outro, senti uma picada na minha perna, uma dor tao intensa, impossivel de esquecer que jamais quererei reviver nem desejo a ninguem, uma dor tao intensa que me levou de imediato ao chao em agonia e foi ai que me apercebi o que tinha acontecido. Tinha pisado um escorpiao e este tinha-me picado de volta, so me apetecia chamar-lhe nomes... Consegui levantar-me e andar mais um pouco, mas estava ja demasiado longe do acampamento, tinha-me aventurado demais. Senti as minhas pernas desfalecerem, a cabeça a andar a roda, desmaiei e cai no chao. Lembro-me de pensar se seria ali que morreria...
Acordei, olhei para cima e vi um vulto negro, ainda estava atordoado e tudo me parecia enevoado. Cheguei mesmo a pensar se estaria a alucinar com a morte... Mas nao, quando finalmente vim a mim reparei nele, um rapazinho negro, tronco nu, magro como manda a lei da selva. Sorria para mim.
Nao reconheci onde estava. Uma gruta, uma fogueira.
Perguntei-lhe se me tinha salvo mas ele nao percebia portugues. Tive que assumir que sim e agradeci-lhe na mesma ainda que ele nao me percebesse.
Com algum esforço e linguagem gestual consegui fazer com que ele percebesse o meu nome e que me dissesse o seu, chamava-se Abimeleque.
Levantei-me e pedi-lhe que me levasse de volta ao meu acampamento, ele assim o fez. Quando me deixou na minha casa de pano tentei fazer com que ele percebesse que gostava que ele voltasse no dia seguinte de manha, queria agradecer-lhe de alguma forma. Nao consegui perceber se tinha percebido, apenas podia aguardar pelo que o dia seguinte me reservaria"
Eram 6 da manha, demasiado cedo para qualquer ser humano normal se levantar mas o meu corpo nao me permitiu voltar a adormecer. Levantei-me.
Deixei-me levar pelos sons e cheiros de Africa. O cheiro a erva rasteira, a animais, a calor, a morte ja pairava no ar da planicie de Mumbassa. Local onde me tinha sediado para fugir a civilizaçao, fugir as rotinas, as pessoas, aos costumes ocidentais que me tinham sido incutidos desde criança.
Decidi vir para Africa, mais propriamente para a Moçambique, terra querida da minha mae e meus avos, para tirar tempo para escrever, para me inspirar nas paisagens desertas, torridas, de cores quentes que Africa me proporcionava.
Sai da tenda, da minha casa de pano, fui la fora. Inspirei bem fundo aquele ar puro que o meu santuario possuia.
Contra os avisos dos meus guias decidi aventurar-me um bocado para la dos limites do acampamento, a sensaçao de explorar terreno desconhecido, de poder encontrar animais selvagens, do perigo deixava-me excitado e com vontade de correr esse perigo. Sentia-me confiante na minha pequena insignificancia, na minha pequenez quando comparado com a imensidao daquela planicie, dos seus verdes pastos, dos lagos que se estendiam por largos kms, aventurei-me sem olhar para tras.
Andei durante alguns minutos, horas, nao sei bem, decidi nao levar qualquer tipo contador de tempo para que apenas terminasse a minha caminhada quando o meu espirito assim mo dissesse.
No meio daquelas ervas era por vezes dificil ver onde punha os pes e isso seria a causa da minha ruina.
De um momento para o outro, senti uma picada na minha perna, uma dor tao intensa, impossivel de esquecer que jamais quererei reviver nem desejo a ninguem, uma dor tao intensa que me levou de imediato ao chao em agonia e foi ai que me apercebi o que tinha acontecido. Tinha pisado um escorpiao e este tinha-me picado de volta, so me apetecia chamar-lhe nomes... Consegui levantar-me e andar mais um pouco, mas estava ja demasiado longe do acampamento, tinha-me aventurado demais. Senti as minhas pernas desfalecerem, a cabeça a andar a roda, desmaiei e cai no chao. Lembro-me de pensar se seria ali que morreria...
Acordei, olhei para cima e vi um vulto negro, ainda estava atordoado e tudo me parecia enevoado. Cheguei mesmo a pensar se estaria a alucinar com a morte... Mas nao, quando finalmente vim a mim reparei nele, um rapazinho negro, tronco nu, magro como manda a lei da selva. Sorria para mim.
Nao reconheci onde estava. Uma gruta, uma fogueira.
Perguntei-lhe se me tinha salvo mas ele nao percebia portugues. Tive que assumir que sim e agradeci-lhe na mesma ainda que ele nao me percebesse.
Com algum esforço e linguagem gestual consegui fazer com que ele percebesse o meu nome e que me dissesse o seu, chamava-se Abimeleque.
Levantei-me e pedi-lhe que me levasse de volta ao meu acampamento, ele assim o fez. Quando me deixou na minha casa de pano tentei fazer com que ele percebesse que gostava que ele voltasse no dia seguinte de manha, queria agradecer-lhe de alguma forma. Nao consegui perceber se tinha percebido, apenas podia aguardar pelo que o dia seguinte me reservaria"
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