domingo, 14 de novembro de 2010

Quase memórias

Hoje estou velho, cansado, usado, com as formas que o teu corpo, o dela, os vossos me deixaram, moldaram.
Guardo em mim as memórias dos momentos que passaram tão fugazes quanto o tempo.
O tempo, essa coisa que apenas serve par nos gastar, para passarmos de novidade a simples objectos.
Lembro-me bem do dia em que me compraste. Ah! Que dia Feliz! Podias ter levado qualquer um dos meus irmãos, companheiros, mas, preferiste-me a mim. Nesse dia, sim, soube o que era ser feliz. Obrigado!
Levaste-me para casa...
Compraste-me uma capa, evitavas que os teus gatos arranhassem os meus braços. Elogiavas o meu conforto, dizias que eu era lindo, perfeito para a tua sala. Sempre que fazias jantar cá em casa eu era o verdadeiro anfitrião, a estrela da sala, todos os teus amigos se aninhavam em mim.
Trocaste carinhos e afectos, sexo, discutiste, argumentaste em cima de mim, Era o teu melhor amigo. Em todas as ocasiões ouvi, fiquei sempre do teu lado e quando precisavas de ser confortado eu estive lá para ti.
Com o passaro tempo, todos os bons e maus momentos que passámos juntos nada significaram para ti (por favor prova-me que estou errado). A minha capa começou a ficar com buracos. Sentia-me desprotegido e tu nada fazias. Começas-te a não ligar ao que os teus gatos faziam com os meus braços, as feridas abertas que não saravam, e tu nada dizias...
Começaste a olhar apara mim como algo gasto, velho, inútil, "objectificaste-me"! Tornei-me "coisa" em vez de legado, algo que deixarias aos teus filhos ou algo parecido. O teu pensamento agora voltava-se apenas para me trocares por outro. Na melhor solução para te veres livre de mim.
Hoje estou na rua, junto a um caixote do lixo, à espera que me venham recolher. Tenho frio...
Estranhos, vagabundos, drogados, aproveitam-se da minha breve passagem por este sítio maldito para se sentarem, dormirem, drogarem. Sinto-me como uma puta reles, onde todos passam, todos usam e eu nada posso fazer!
E nem por isto tudo te guardo rancor; nem por isso quero que caias numa sarjeta, só para te sentires tão sujo quanto eu; nem por isso desejo que não consigas dormir à noite só por sentires a minha falta.
Não posso! Não tenho esse direito! Vocês, pessoas mortais, simples, mudam  a vossa lealdade constantemente, nós somos diferentes, sempre leais ao nosso dono.
Somos diferentes, opostos.
No entanto foi essa mesma diferença que nos uniu neste tão curto espaço de tempo que partilhámos juntos.
Obrigado pelos momentos passados...
Espero voltar a ver-te quando reencarnar num candeeiro, num colchão. qualquer coisa que uses diariamente, qualquer coisa que tenhas sempre contigo...

(Ao que eu agora pergunto " Que móvel é este?)

5 comentários:

  1. Andas a inovar Chico. Desta vez escreveste um texto bem diferente do habitual.
    O móvel é sem dúvida um sofá!
    Certo?

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  2. Sr. Sofá,
    Entendo essas lamúrias, não há nada como sentir que o nosso tempo passou e peço imensa desculpa a todos por ser sempre eu ou a minha família a anunciá-lo.
    Como sabes, também eu fui abandonado, estou no sótão da casa que foi em tempos o palco do nosso protagonismo e dava tudo para poder trocar contigo, sentir que de facto, ainda seria preciso para alguém, que a minha utilidade ainda não tinha expirado. Não me importaria de ser como uma puta reles se assim fosse.
    Além do mais poderia observar a correria desses ridículos humanos que andam de um lado para o outro cheios de sacos e listas com afazeres mas que no fundo nem sabem para onde vão. Pobres inocentes que tentam esquecer a efemeridade da sua vida. Tentam-se preencher com objectos e se por acaso nos associam a um momento ou ocasião que queiram esquecer lá é feita a tal remodelação da casa que ‘’já era precisa à tanto tempo’’, justificam eles.
    Até entendo, mudar é essencial e tal como tu, não os culpo, mas meu querido sofá, não vais reencarnar em nada, nós ficamo-nos por isto mesmo, por esta dor tão irónica no meu caso em que detesto o elemento que me faz viver, o tempo.
    Já não havia espaço para nós naquela sala de qualquer das formas, e agora aposto que no nosso antigo lugar está lá alguma dessas novas decorações de hoje em dia, todas modernas que sou incapaz de entender, sempre com aquele ar de nariz empinado.
    Já me prolongo nesta conversa com tanto de triste como de desnecessario, não era minha intenção. Seja como for, já William Ward dizia que o pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude, o realista ajusta as velas.

    Já tenho saudades da tua companhia.
    O para sempre, teu amigo, Relógio de Sala

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  3. Fantástico Ci.

    Mas....
    Aqui vai a resposta adequada...


    Amigo Relógio,
    Saudosos os tempos em que formávamos uma dupla de ouro na sala. Tu indicando o rumo que o tempo seguia, eu para ampara o efeito que ele causava nas pessoas. Ah, o cansaço...

    Os humanos, ocupam-se das suas vidas, tentando preenche-las com actividades, amores, compras, luxos, sem se aperceberem do que está ao seu lado, daquilo que realmente lhes faz falta. O que quer que tenha criado as pessoas, não as dotou de uma grande inteligência. Pobres loucos, pensando que podem enganar o tempo, enganar-se a eles mesmos e abandonar-nos quando querem. Nós vamos estar sempre aqui de uma maneira ou outra, eles, partirão certamente para outro lugar, conosco, transportariam o tempo e o conforto que sentem na nossa companhia, sem nós, são apenas mais uns à deriva no caminho que lhes vai tomando a vida, no desconforto de serem como são.

    Lamento discordar, mas, SIM eu vou reencarnar. Apenas espero a minha hora (aquela que tu já não me poderás dizer...) O meu fado chegará. Serei desfeito. O meu interior aproveitado para novas almofadas certamente, a madeira dos meus pés para maçanetas ou assim, a minha pele, o meu exterior, bem, façam dela o que quiserem. A minha alma certamente voltará cá para ser novamente feliz. Ainda que por pouco tempo...

    Até tu, meu sincero amigo, um dia deixarás de funcionar.
    Seguirás teu rumo.
    Encontrar-nos-emos do outro lado, certamente Numa próxima vida, com toda a certeza.
    Apesar das nossas memórias serem a História mais presente, sei que quando nos voltarmos a encontrar, conseguiremos ter uma sensação de deja-vu e tudo voltará a ser como dantes.

    O tempo é relativo, apenas nos cansa.
    Espero pacientemente o nosso reencontro, sem nunca me cansar.

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  4. Isto foi o vosso curso de escrita Maria...
    Não posso fazer as aulas, mas posso fazer os textos

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  5. só vi isto agora Chico. assim ja percebo melhor o porquê deste texto. eu fiz o meu sobre uma televisão. Adorei esta actividade :)

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