Sentado no carro à espera não sei bem de quê.
A puta à espera que a venham buscar na esquina do costume.
O bêbado, sentado no bar de sempre, no banco de sempre com a bebida de sempre na mão.
A vida tem destes momentos de apatia que surgem quando há demasiado rotina, quando já não temos tempo para nós nem para nos confrontarmos com os nossos "monstros". A rotina mata-nos. Consome-nos.
A puta quando deixar (eventualmente) de trabalhar, irá certamente voltar à sua esquina que lhe é tão familiar. O bêbado quando largar o vício retornará ao seu bar de sempre, nem que seja para tentar a tentação (resta saber se não é ele o tentado).
Como a puta que trabalha a esquina.
Como o bêbado que vive para o álcool.
Como o estranho que se senta no carro e escreve.
Tudo na vida se baseia em pequenos pormenores, não podemos olhar apenas para a generalidade das coisas.
Devemos saber mais sobre as pessoas, antes de as julgarmos.
Porque é que a puta se vende? Porque é que o bêbado começou sequer a beber? Porque é que o estranho no carro se senta e observa estas pessoas?
São todos pessoas normais.
A puta ?
Chama-se Blanche e não é uma puta de rua qualquer, é uma call-girl de origem nórdica. Longos cabelos loiros, seios proeminentes, um portento de mulher. Bela e generosa, a epítome de de uma mulher. Todos os homens que por ali passam a desejam, a querem (possui-la). Mas Blanche não. É mulher de um só homem (por noite).
É como se diz ."Não é para quem quer é para quem pode".
Começou a vender-se quando chegou a Portugal aos 20, uma vez de vez em quando para ter dinheiro para pagar os estudos e ajudar os pais no seu país natal, que agora não me recordo qual era...
Depois dos estudos vieram as drogas, as festas, o vicio tornou-se incomportável e o que era um part-time passou a trabalho a tempo inteiro.
Formada em Psicologia, rapariga inteligente... (que desperdício).
Hoje, aos 30, 10 anos depois de um começo simples. Já livre das drogas, Blanche continua puta, com um corpo fenomenal e enquanto durar não pensa parar. O dinheiro é fácil e por vezes (muito raramente) até lhe dá algum prazer.
O estranho do carro, olha para Blanche. Interrogando-se se alguma vez terá uma oportunidade com ela...
Quando fala de Blanche, o estranho quase que a admira, fala com um certo "deliciamento" por poder olhar para tal beleza todos os dias.
Mas quando pensa no bêbado, observa-o com pena... Um homem sozinho, sem ninguém que beba um copo com ele...
O bêbado chama-se Mário, tem 57 anos, a sua mulher deixou-o por outro. Tem 2 filhos, um padre e o outro não lhe fala.
Passa os seus dias sentado no mesmo banco, bebendo o mesmo whisky, contando as mesmas histórias todos os dias.
Começou a beber em casa, quando o casamento começou a desmoronar, isto à quase 5 anos.
Mário sempre soube que a sua mulher tinha um caso, mas preferia ignorar e manter as aparências, assim sempre tinha alguém para quem chegar à noite, depois do trabalho. Mas amor? Não...
Os filhos, se um tinha ido para padre e Mário ainda não tinha conseguido lidar com isso, o outro já não lhe falava. Não depois de Mário numa das suas bebedeiras habituais se ter tornado violento e ter começado a agredi-lo porque ele lhe tinha pedido alguma coisa. Já foi à tanto tempo, que nem Mário se lembra. O álcool tem destas coisas...
Quando a mulher se divorciou para ficar com a sua "alma gémea", Mário entrou numa espiral depressiva brutal, bebia no trabalho, a guiar, em casa, basicamente sempre que tinha 4 min livres servia-se de um copo do seu whisky. Famous Grouse 15 anos.
Foi despedido, vivia de empréstimos bancários, bebia, suicidava-se todos os dias um bocado. Como se esperasse a chegada da morte.
Talvez se preferisse enfrentar o facto de o amor já não estar presente no seu casamento mais cedo, nada disto teria acontecido.
Se aceitasse as escolhas do(s) filho(s), talvez não estivesse tão sozinho.
O estranho do carro, via Mário como uma pessoa solitária. Sem grandes amigos. Interrogando-se sempre se devia ir falar com ele, para o tentar animar ou ao menos para tentar perceber melhor a sua história...
A vida é mesmo feita de pormenores, são eles que nos permitem percebermos as pessoas, são as pequenas coisas que fazem de nós, nós.
Ah! Eu sou o estranho do carro
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