domingo, 23 de janeiro de 2011

Uma térmita

Vivo no meio do pó, da solidão, do que podia ter sido e não foi. No meio de de um infindável número de "ses" e "e se".


Estou entre sonhos, contos, histórias de embalar e outras tantas que nunca foram contadas.


Estou num sótão...


Aqui há História e histórias, lendas. Sonhos começados, começados, nunca acabados.


Cheguei cá não sei bem como, era ainda pequenina quando a minha mãe me trouxe para cá. Infelizmente sou já a única que resta de uma família numerosa de tantas outras iguais a mim.
Vou-me alimentando dos móveis, das suas histórias sobre a História que os levou até lá. 
Deparei-me já com móveis mais interessantes que as pessoas que os deitam fora, que os abandonam aqui, no sótão, à mercê de indivíduos necrófagos como eu.
Tenho por vezes como pratos principais as secretárias que acompanharam Napoleão até Waterloo, as mesas-de-cabeceira que estavam no bunker em que Hitler pôs fim à sua vida. A cadeira onde Marylin Monroe era maquilhada todos os dias, as bancadas onde Martin Luther King proferiu tantos discursos.
Parece que os donos de toda esta História fantástica se esqueceram já da sua importância.


No sótão não é só "gente" famosa.
Tenho como companhia, se preferirem, entradas. Os roupeiros da avó, os baús que guardam todos os "esqueletos" da família, um sem número de coisas que não são devidamente apreciadas pelas pessoas. Hoje, é tudo na base do aqui e agora, do prazer instantâneo de comprar um móvel mais "fashion", mais minimalista em tons de branco, preto e cinzento. Bah! O prazer das memórias já não é o mesmo, o prazer de mostrar a herança familiar foi-se perdendo com o tempo.


Enfim, os valores de hoje não são os mesmos que as gerações anteriores defendiam.
E por isso, mandam toda a História para meio do pó. As batalhas diárias, para o meio do esquecimento. As recordações, para o meu prato... 

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