Entrou no carro sem saber muito bem para onde ir, o que pensar, o que fazer.
Limitou-se a deixar o carro andar ao sabor daquele pensamento que divagava um pouco por todo e lado, por lado nenhum ate.
Os pensamentos tornaram-se lentos, monotonos como a paisagem que ia passando, voando mais devagar do que o habitual. Fazia o caminho que normalmente costumava fazer quando se sentia feliz, triste ou quando apenas precisava de um lugar para pensar. Dai a monotonia daquelas ervas, arvores semi-mortas do seu lado direito; o mar revolto, o vento norte a entrar pela janela do condutor, tudo lhe era familiar mas de certo modo hoje era diferente.
O seu pensamento vagaroso, drogado, viajante, nao lhe permitia saborear aquele caminho como o costumava fazer nos outros dias. Ele estava diferente, apenas nao conseguia perceber porque.
Entrou no carro apenas com as chaves, os seus pensamentos e uma carta. Carta que ainda nao tinha lido pela falta de coragem, a curiosidade era de facto imensa mas ao mesmo tempo o medo nao lhe permitia saber que segredos guardava aquele pequeno pedaço de papel que lhe havia sido entregue pela pessoa de quem ele mais gostava, a pessoa que o havia mais marcado em todos estes anos de existencia.
Ja se via a praia, as dunas, as areias, as ervas que conseguem lutar para crescer naqueles meios hinospitos cheias de garra. Deixou-se guiar pelo pensamento ate aquele local magico que tao boas recordaçoes lhe trazia. Deixou-se parar pelo destino.
O carro abrandou, o pensamento foi tomando alguma consistencia enquanto lia a carta sentado no carro a olhar o mar e o por-do-sol.
"Nao sei porque razao te escrevo. Ja tudo foi dito, tudo pensado e nunca cheguei a conclusao alguma.
Todas as palavras sao em vao, os pensamentos sao inuteis e no entanto obedeço-lhes sempre em vez de ouvir a parte que nao pensa e que apenas sente de mim.
Tu que me amas, tu que me respiras, tu que me vives.
Amas-me tao intensamente que nao sei mais quem sou sem ti e isso assusta-me.
Respiras-me e roubas-me o meu proprio ar. Sufocas-me!
Tu que me vives, vives duas vidas separadas. A tua e a minha. Os meus sonhos sao meus e nao teus.
Eu tambem te amei, por vezes. Respirei contigo, por vezes. Vivi contigo, por vezes.
Nao te roubei nada que nao me desses ja, muitas vezes em demasia e secalhar o mal foi mesmo esse. Tu davas em demasia e eu so me apercebi quando ja nao havia eu nesse exagero de vivencia tua.
Espero que me perdoes o facto de ainda te amar e ja nao conseguir ser nos. Espero que me perdoes escrever-te e nao te encarar.
Esquece-me o mais rapido que conseguires, vive por ti e para sempre sem mim.
Luta pelos teus sonhos, respira o teu ar, morre sem mim mas nunca sozinho.
Amo-te agora e talvez para sempre ou talvez nunca te tenha amado."
Assim acaba a carta.
Lagrimas escorriam-lhe pela face, o coraçao começava a acelarar tal era a ansiedade que o pensamento de nao a voltar ver lhe trazia. O pensamento voava para junto dela. A ele so lhe apetecia arrancar a pele, os cabelos, tornar-se noutra pessoa que nao ele, que nao aquele que a levou a afastar-se de uma felicidade possivel e real. Na sua mente as coisas começavam a ficar turvas, desta vez era mais como uma constante sobreposiçao de imagens, momentos, dizeres que haviam partilhado durante todo aquele tempo. Tudo isso se transformava agora num grande NADA.
O seu momento de felicidade tinha realmente acabado e desta vez doia. Doia muito. Mais do que alguma vez pensou ser possivel e do que alguma vez quereria sentir na vida. Pergunto-me se sera capaz de amar outa vez...
Se ainda tivesse 13 anos podia dizer:
"Boa, assim ja nao tenho que lhe comprar prenda de anos".
Mas ja nao tinha. Era um homem feito com coraçao mole que agora sofria.
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